Checamos: professor da USP afirmou na Folha que há eficácia ‘consistente’ das máscaras, depois admitiu não ter evidências

Bruno Gualano afirmou 'efeito protetor consistente' das máscaras, mas quando solicitado a apresentar evidências, citou estudos sem significância estatística e ignorou meta-análise da Cochrane. É a segunda vez em dois anos que a Folha publica afirmações categóricas sobre máscaras na COVID sem fundamentação científica sólida.

Resumo

Bruno Gualano e Pedro Hallal fizeram afirmação categórica de eficácia “consistente” das máscaras na Folha de S.Paulo. Quando solicitados a fundamentar cientificamente:

  • Admitiram não ter evidência padrão ouro
  • Fizeram cherry-picking de estudos individuais
  • Omitiram que esses estudos estão na Cochrane (resultado agregado: sem efeito)
  • Citaram estudo cujos próprios autores admitem não poder concluir
  • Atacaram o método RCT quando não deu o resultado desejado
  • Recorreram a evidências de baixa qualidade (exatamente o que criticam)
  • Distorceram nosso pedido (espantalho)
  • Fizeram comparações absurdas (paraquedas)
  • Apelaram à popularidade como evidência
  • Recomendaram literatura que não sustenta sua posição

Principal Contradição

– No artigo, na Folha: “modesto, porém consistente, efeito protetor” (afirmação categórica)

– Na resposta, quando pressionados: “ausência de evidência não é evidência de ausência” (admissão de que faltam evidências) 

Aviso de abordagem

Nós, do MPV, não temos nenhuma preocupação de fazermos uma checagem curta, rápida. Aqui, seremos bastante didáticos, tanto para médicos, estudantes de medicina, como fazemos questão de que possa ser entendido, até em detalhes avançados, entre o público em geral.

O artigo checado

No dia 4 de fevereiro de 2026, a Folha de S.Paulo publicou o artigo “Máscaras, ciência e política“, de autoria de Bruno Gualano, professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. No texto, o professor fez uma afirmação categórica:

As melhores evidências —que incluem alguns ensaios controlados e o uso adequado de respiradores de maior filtração— apontam para um modesto, porém consistente, efeito protetor.

Contudo, a afirmação de eficácia consistente das máscaras não foi publicada com o devido link ou referências para estudos científicos sólidos que comprovem a afirmação.

MPV entrou em contato, educadamente, para perguntar

Prezados,

Nós, do MPV – Médicos Pela Vida, associação médica com milhares de associados, realizamos checagens de fatos com o objetivo de combater a desinformação e promover informações confiáveis em saúde para médicos, associados e público geral que acessa nosso site e redes sociais.

Dito isso, vamos ao ponto. Lemos com profunda atenção o texto “Máscaras, ciência e política”, publicado no jornal, no dia 4 de fevereiro de 2026.

Neste texto, o autor, Bruno Gualano, professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, ao se referir às máscaras usadas durante a COVID-19, faz a seguinte afirmação: 

“As melhores evidências —que incluem alguns ensaios controlados e o uso adequado de respiradores de maior filtração— apontam para um modesto, porém consistente, efeito protetor”.

Entretanto, o ilustre professor, certamente em um pequeno descuido, não colocou o link para o estudo que confirma sua contundente afirmação de eficácia das máscaras.

Dados que temos

No momento, o estudo que nossa associação se baseia para informar nossos médicos associados e o público em geral é a última revisão Cochrane das máscaras, publicada em janeiro de 2023. O título é: “Physical interventions to interrupt or reduce the spread of respiratory viruses”. (Intervenções físicas para interromper ou reduzir a propagação de vírus respiratórios).

A biblioteca Cochrane é o mais alto nível de evidência científica. Fez uma meta-análise incluindo apenas ensaios clínicos randomizados (ECR), o “padrão ouro” da ciência.

O gráfico da meta-análise

O foco aqui é na comparação entre usar máscaras médicas/cirúrgicas versus não usar máscaras. 

É um forest plot (gráfico de floresta), típico de meta-análises. Ele junta resultados de vários estudos randomizados controlados (RCTs) para ver o efeito geral. Cada linha horizontal representa um estudo (ou subgrupo). O quadrado preto no meio da linha mostra o resultado daquele estudo (quanto menor o maior risco de doença com máscara). A linha horizontal é o intervalo de confiança de 95%. O diamante no final é o resultado combinado (média ponderada de todos os estudos). A linha vertical no meio (em 1) significa sem diferença (máscara = sem máscara). O eixo horizontal mostra o Risk Ratio (RR): Razão de Risco.

Os resultados da Cochrane? 

Doenças semelhantes à influenza ou COVID apresentam um risco relativo combinado de 0,95 e não é estatisticamente significativo. Infecção confirmada em laboratório (influenza ou SARS-CoV-2) apresenta um risco relativo combinado de 1,01. Outros vírus respiratórios confirmados em laboratório (apenas um estudo – Bundgaard 2021), risco relativo de 0,58 e não é estatisticamente significativo.

Ou seja, a eficácia não foi comprovada no mais alto nível de evidência científica.

Prazo

Temos um prazo até segunda-feira, dia 9 de fevereiro de 2026, para fecharmos a checagem. Lembrando que é uma tarefa extremamente simples. Basta, apenas e simplesmente, enviar o link com um estudo “padrão ouro”, controlado, ou seja, do mesmo nível da Cochrane, que comprove, como o professor Bruno Gualano afirmou, “um modesto, porém consistente, efeito protetor”. Portanto, estatisticamente significativo.

Obviamente, um professor e cientista de alto calibre como Bruno Gualano, que fala em nome da ciência, colocando-se, justamente, como um porta-voz da ciência, não tira conclusões sobre a eficácia de vozes de dentro da sua cabeça. Portanto, será extremamente fácil para ele nos enviar o link desse estudo, revisado por pares e publicado em um periódico científico de respeito.

Lembrando  que os membros do MPV, além do público geral que nos lê, estão ávidos e humildemente prontos para o aprendizado do douto professor. Nos comprometemos, em nome da defesa da ciência, assim que ele enviar o estudo, fazermos uma matéria informando a todos que há, sim, eficácia das máscaras contra a COVID-19.

Certamente, o professor Bruno Gualano não faz parte, como ele critica em seu próprio texto, de “grupos extremistas”, que convertem assuntos científicos, como o da eficácia das máscaras, em “bússola ideológica”, e será, portanto, extremamente fácil e rápido ele nos indicar o estudo que se baseia.

Histórico de checagens com a Folha

Na última vez que fizemos uma checagem de fatos de um artigo na Folha, levou mais de 2 meses para que houvesse uma resposta. Na época, em 2024, um grupo de professores e cientistas fez afirmações categóricas sobre a eficácia das vacinas COVID na redução da transmissão e também, coincidentemente, sobre a eficácia das máscaras. Naquela ocasião, humildemente, apenas pedimos links dos estudos que sustentassem as afirmações. Na própria coluna, os autores, inclusive, pediam prisão para quem discordasse deles.

Demorou. Dois meses depois, quem nos respondeu não foram os autores do estudo, nos enviando os links e comprovando o que dizem, mas Tomas Pereira de Almeida Silva, o Gerente Jurídico Geral da Folha, explicando que eram meras opiniões pessoais dos autores de que essas eficácias científicas haviam sido comprovadas. Repetindo: meras opiniões de que havia comprovação científica.

E meras opiniões pessoais em algo de grande importância, afinal, mexeu com a vida de toda a população, com máscaras e vacinas obrigatórias, além de pedir prisão de quem discordasse das suas opiniões, em megafone como a Folha. Todo o histórico pode ser lido aqui: Checagem: leia a surpreendente resposta do jurídico da Folha de S. Paulo ao MPV

Adendo

Aproveitamos para ressaltar que nossa pergunta não é direcionada ao Bruno Gualano como pessoa, mas ao Professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Afinal, quando alguém escreve com essa credencial institucional, especialmente criticando outros e falando em nome da ciência, esperamos que cada afirmação venha respaldada por evidências sólidas. Do contrário, seria apenas um uso indevido da autoridade institucional para propagar opiniões pessoais. E certamente não é esse o caso aqui.

Além disso, achamos particularmente interessante que, no próprio artigo, o professor Gualano critique “evidências de baixa qualidade” que “alimentam políticas públicas e narrativas frágeis”. Concordamos plenamente. Por isso mesmo, presumimos que o professor não estaria, ele próprio, alimentando narrativas com evidências de baixa qualidade (ou sem evidências). Afinal, seria profundamente irônico um professor da USP fazer exatamente aquilo que critica.

A resposta comentada

Após 4 dias de espera, no dia 9 de fevereiro, recebemos uma resposta. Não do professor Gualano diretamente, mas através do Departamento de Ombudsman da Folha de S.Paulo, assinada por “Bruno Gualano e Pedro RC Hallal” (co-autor).

A resposta foi extensa. Logo no início, uma admissão reveladora:

Há uma aparente confusão sobre o pedido de evidências

A afirmação de que as evidências apontam para um modesto, porém consistente, efeito protetor das máscaras não se baseia, nem poderia se basear, em um único ensaio ‘padrão ouro’.

Apesar de parecer informativo e terem escrito, logo no início, uma frase que parece fazer sentido, didática, é uma resposta que não aborda diretamente o pedido. O que nós enviamos foi a meta-análise da Cochrane sobre as máscaras. Meta-análise é um estudo que agrega estudos semelhantes. No caso, o efeito protetivo das máscaras contra vírus. E no caso específico da meta-análise da Cochrane, ela juntou absolutamente todos os ensaios “padrão ouro”, ou seja, os randomizados, das máscaras feitos até 2023. 

Ou seja, nós não nos baseamos em um “único estudo”, como tentam sugerir, e nem pedimos um “único ensaio ‘padrão ouro’”, como disseram. Nós pedimos algo do nível da Cochrane, ou seja, uma meta-análise “padrão ouro”, que mostrasse efeito positivo, para que pudessem sustentar a afirmação contundente deles na Folha.

Em outras palavras, o que eles disseram, foi: “não temos estudos de alta qualidade que suportam nossas afirmações”.

Evidências de baixa qualidade

Na resposta, eles seguiram:

Ela reflete a síntese do conjunto da evidência disponível, incluindo ensaios clínicos randomizados, bem como estudos laboratoriais e de efetividade, dados observacionais coerentes e evidência mecanística robusta, especialmente para máscaras cirúrgicas em contextos comunitários e para respiradores de maior filtração (PFF2/N95) em ambientes de maior exposição, quando usados adequadamente.

Síntese de conjunto de evidências é exatamente o que a meta-análise da Cochrane fez. O resultado foi: gripe ou doença COVID teve um RR (risco relativo) de 0,95, ou seja, uma medição pontual de 5% de redução nestas doenças com as máscaras, mas com grande margem de erro, podendo ser uma eficácia de 16% ou um aumento da chance de pegar essas doenças de 9%.. Já para COVID confirmada em laboratório, o resultado RR de 1.01, ou seja, uma medição pontual de 1% de aumento de chance de pegar a doença com as máscaras. Podendo ser uma eficácia de 28% ou um aumento de chance de até 42%. 

Analogia: É como medir a temperatura e o termômetro dizer “entre 5°C e +30°C”. 

Você não pode afirmar, com certeza, se está frio ou calor. Só pode dizer: “não sei”.

Contraste com a crítica no artigo original

O irônico é que no próprio artigo original, na Folha, o autor reclama que “evidências de baixa qualidade alimentam políticas públicas e narrativas”, mas para que possam afirmar que as máscaras funcionam, de modo “consistente”, incluem “dados observacionais” e estudos “laboratorais”. Isso são exatamente evidências de baixa qualidade. Os professores fazem exatamente o que criticam, mesmo com a intervenção apresentando resultados nulos por meta-análises de estudos “padrão ouro”.

Tradução do que disseram: “Vamos misturar tudo (inclusive estudos de baixa qualidade) para chegar na conclusão que queremos”.

Análise da afirmação sobre RCTs

Os autores seguem com a resposta:

Os RCTs disponíveis, antes e durante a COVID-19, mostram reduções modestas no risco de infecção.

Não, não mostram. Os resultados da meta-análise Cochrane indicam o contrário: RR 0,95 e 1,01, ambos sem significância estatística. Isso é o mais próximo de uma afirmação categórica de “ausência de efeito” que a ciência médica é capaz de produzir.

Cherry picking

O termo Cherry picking, na tradução “colher cerejas”, querendo dizer “escolha a dedo” é quando alguém seleciona apenas os dados, estudos ou evidências que favorecem seu argumento, ignorando deliberadamente todo o resto que o contradiz. É o que os autores fizeram na sequência da resposta.

O maior RCT já conduzido (Bangladesh; >340 mil adultos) encontrou redução de infecção sintomática (~9–11%), sobretudo com máscaras cirúrgicas.

Os autores citam o primeiro ensaio randomizado, padrão ouro. É o “Impact of community masking on COVID-19: A cluster-randomized trial in Bangladesh”, liderado pelo cientista Jason Abaluck. 

Mas há um problema fundamental que os professores omitiram: o estudo de Bangladesh está incluído na meta-análise da Cochrane que citamos em nosso pedido.


De fato, este estudo, de Bangladesh, isoladamente, mostra uma tendência de eficácia, pífia, mas mostra. Repare que no quadrado vermelho do gráfico, ele está à esquerda, colado na linha, mas levemente favorável à intervenção. Contudo, existem outros, semelhantes, que mediram exatamente a mesma intervenção, que estão à direita. Na soma geral o RR (risco relativo) é 0,95 e com, o equivalente às pesquisas eleitorais, “empatadas dentro da margem de erro”. 

Selecionar à dedo apenas os estudos que confirmam sua crença pré-existente, ignorando os que contradizem, não é, digamos, uma abordagem científica séria.

Os autores seguem com o cherry picking:

Outros RCTs comunitários (Índia) observaram estimativas favoráveis com menor hospitalização (RR ~0.36) e mortalidade (RR ~0.84), porém com intervalos de confiança amplos, refletindo baixo poder estatístico, e não ausência de efeito, frise-se.

Aqui eles citam o estudo: “Impact of distribution of facemasks on community incidence and outcomes of COVID-19: A cluster randomised trial in India”, publicado em agosto de 2025, portanto é um ensaio que não está, ainda, na meta-análise da Cochrane.

Entretanto, mesmo isoladamente, este estudo não comprovou nada. Os cientistas escreveram: “Não podemos tirar conclusões definitivas sobre o efeito da distribuição e promoção de máscaras faciais em toda a aldeia na incidência de COVID-19 a partir destes dados”.

O motivo é o seguinte. Vamos explorar os dados. Para incidência de COVID-19 (desfecho primário): RR 0.96 [0.57–1.63], ou seja, encontraram uma redução pontual de 4% da incidência de COVID entre os que usaram máscaras, mas podendo ser uma eficácia de 43% ou um aumento de chance de 63%. É, portanto, um medição pontual pífia de 4%, com tanta margem de erro que é apenas ruído estatístico. O estudo também mediu redução de hospitalizações por COVID com ampla margem de erro e uma pequena redução de mortalidade, entre os usuários das máscaras, mas também com uma ampla margem de erro.

Ou seja, este estudo, sozinho também não conseguiu comprovar nada. Quando for incluído na meta-análise da Cochrane, provavelmente em uma próxima revisão, não vai alterar a balança, que está rigorosamente no meio.

Isso é extremamente longe de qualquer afirmação contundente de “modesto mas consistente, efeito protetor”, como Gualano escreveu na Folha.

Mais cherry picking

Os autores seguiram, avaliando um estudo do início da pandemia, feito na Dinamarca.

O DANMASK-19 avaliou exclusivamente proteção individual em contexto de baixa adesão comunitária, produziu resultados inconclusivos, compatíveis tanto com benefício quanto com ausência de efeito, e não avaliou controle de fonte.

Aqui eles citam o estudo: “Effectiveness of Adding a Mask Recommendation to Other Public Health Measures to Prevent SARS-CoV-2 Infection in Danish Mask Wearers: A Randomized Controlled Trial”.

Ele, também, está incluído na meta-análise Cochrane.


Em outro exemplo de seleção seletiva para valer sua posição, o estudo Danmask, liderado pelo cientista Henning Bundgaard, também indica um leve favorecimento à intervenção das máscaras.

Contudo, na conta geral, quando outros estudos semelhantes são incluídos, vejam a posição do losango, que é a conta geral que indica favorecimento ou não do uso de máscaras. Ele está rigorosamente no meio. Ou melhor, em 1% de aumento de chance com as máscaras, porque outros estão à direita.

Explorando linguagem cuidadosa

Ademais, a revisão Cochrane de 2023 citada não conclui que máscaras “não funcionam”. Ela aponta limitações importantes dos RCTs disponíveis, como baixa adesão, contaminação entre grupos e heterogeneidade de intervenções e contextos, que reduzem a capacidade de detectar efeitos modestos, sobretudo em intervenções comportamentais. A própria Cochrane enfatiza que ausência de significância estatística não equivale a evidência de ausência de efeito.

Em estudos científicos, a linguagem é, tradicionalmente, cuidadosa. Eles não escrevem “não funcionam”. No estudo, os autores escreveram: “Os resultados agrupados de ensaios clínicos randomizados (ECR) não mostraram uma redução clara na infecção viral respiratória com o uso de máscaras médicas/cirúrgicas”.

Isso porque novos estudos podem ser feitos para alterar, no futuro, a balança. Contudo, os autores, fora do texto científico que trata a incerteza como algo natural das ciências, explicam com mais clareza. Em entrevista à jornalista Maryanne Demasi, Tom Jefferson, professor associado sênior da Universidade de Oxford e autor principal do estudo, sem meias palavras, afirmou: “Ainda não há evidências de que as máscaras sejam eficazes durante uma pandemia”.

“Não há nenhuma evidência de que façam qualquer diferença. Ponto final. Meu trabalho, nosso trabalho como equipe de revisão, era analisar as evidências, e fizemos isso”, complementou Jefferson.

Mas para os educadores físicos Gualano e Hallal, é o contrário: “modesto, porém consistente, efeito protetor”

A diferença entre linguagem científica e a realidade


Linguagem científica (cautelosa):
“não mostraram uma redução clara”

Tradução para a língua normal (Tom Jefferson):
“Não há nenhuma evidência de que façam qualquer diferença. Ponto final.”

Gualano e Hallal (no artigo da Folha):
“modesto, porém consistente, efeito protetor”

Isso não é uma linguagem científica cautelosa. Isso é afirmação categórica sem base na evidência.

Atacando o método quando não gostam do resultado

Como os estudos padrão ouro não deram os resultados que queriam, os professores atacaram o próprio método científico.

Na resposta, escreveram:

Como é amplamente reconhecido, RCTs apresentam limitações práticas importantes quando aplicados a intervenções comportamentais de base populacional, como o uso de máscaras. 

Vamos entender o que está acontecendo aqui. O que são RCTs e por que são padrão ouro? RCT significa Randomized Controlled Trial (Ensaio Clínico Randomizado Controlado). É considerado o padrão ouro da evidência científica porque:

1 – Randomização – As pessoas são distribuídas aleatoriamente entre os grupos (máscara vs sem máscara), eliminando vieses de seleção

2 – Grupo controle – Compara diretamente com quem não usa máscara

3 – Prospectivo – Acompanha as pessoas ao longo do tempo

4 – Causalidade – Pode estabelecer relação de causa e efeito

Meta-análises de RCTs (como a Cochrane) são o nível mais alto de evidência na medicina baseada em evidências. Elas juntam todos os RCTs sobre um tema para ter mais poder estatístico e evitar cherry-picking.

Padrão observado na resposta

Os professores estão fazendo o seguinte:

Passo 1: Fazem afirmação categórica (“consistente efeito protetor”)
Passo 2: Quando solicitadas evidências de alta qualidade (meta-análise RCT)
Passo 3: Percebem que as evidências de alta qualidade CONTRADIZEM sua afirmação
Passo 4: ATACAM o método de alta qualidade
Passo 5: Descem na pirâmide para estudos de baixa qualidade que confirmam sua crença

Isso é o oposto do método científico.

A ironia final é que no próprio artigo na Folha, os professores criticam: “Evidências de baixa qualidade alimentam políticas públicas e narrativas frágeis”. Mas quando as evidências de alta qualidade (Cochrane) contradizem sua posição, eles atacam o método de alta qualidade, recorrem a evidências de baixa qualidade, os observacionais, Para alimentar… políticas públicas e narrativas frágeis 

Eles fazem exatamente o que criticam.

A falácia do paraquedas: comparações absurdas

Os autores prosseguem em sua resposta com uma comparação que pode ser considerada, no mínimo, inadequada:

Não por acaso, intervenções hoje consensualmente consideradas efetivas (cintos de segurança, paraquedas, capacetes, lavagem das mãos etc) nunca dependeram exclusivamente de RCTs para sua validação, mas sim da convergência de múltiplas linhas de evidência de boa qualidade, provenientes de estudos laboratoriais, estudos observacionais de adequação e plausibilidade, séries temporais, experimentos naturais, modelamentos, entre outros delineamentos. 

Essa comparação é cientificamente desonesta. Vamos entender por quê. Os professores estão sugerindo que máscaras são como paraquedas: tão obviamente eficazes que não precisam de RCTs para provar. Mas há uma diferença fundamental que eles convenientemente ignoram: a magnitude do efeito.

Quando você pula de um avião sem paraquedas, você morre. Quando você pula com paraquedas, você sobrevive. A taxa de sobrevivência salta de praticamente 0% para mais de 99,9%. O efeito é massivo, óbvio e imediato. Você não precisa de RCT porque qualquer pessoa consegue ver a diferença. É impossível confundir. Não há variáveis confundidoras que expliquem o efeito.

O mesmo vale para cintos de segurança: reduzem mortalidade em acidentes em aproximadamente 50%. Para capacetes de motocicleta: redução de 42% em lesões fatais na cabeça. São efeitos enormes que saltam aos olhos quando você compara populações antes e depois da adoção, mesmo em estudos observacionais.

Mas máscaras? Os próprios professores chamam o efeito de “modesto”. E esse é exatamente o ponto: efeitos modestos exigem estudos controlados de alta qualidade para serem detectados, porque são facilmente confundidos com variáveis comportamentais, sazonalidade, outras medidas de proteção, e dezenas de outros fatores.

Se máscaras tivessem efeito comparável a paraquedas, digamos, 95% de redução de infecção, não precisaríamos de RCTs. O efeito seria gritantemente óbvio nas curvas epidemiológicas. Países e regiões que adotaram máscaras teriam tido quedas dramáticas e imediatas nos casos. Mas não foi o que aconteceu. Por quê? Porque o suposto efeito é tão pequeno que precisa de estudos extremamente controlados para ser detectado.

E quando fazemos esses estudos controlados de alta qualidade e juntamos todos eles em uma meta-análise (Cochrane), o que encontramos? Nenhum efeito estatisticamente significativo.

Então os professores estão presos em uma contradição lógica: se o efeito é grande como paraquedas, deveria aparecer claramente nos RCTs, mas não aparece. Se o efeito é pequeno ou modesto, como eles afirmam., então estudos observacionais cheios de viés não conseguem detectá-lo com confiança, só RCTs bem feitos conseguem. E os RCTs bem feitos não encontraram efeito.

Há ainda outro problema devastador nessa comparação: os professores citam lavagem de mãos como exemplo de intervenção que não precisa de RCTs. Mas aqui está a ironia: lavagem de mãos está na mesma revisão Cochrane que eles estão tentando desqualificar. “A higiene das mãos provavelmente reduz modestamente a carga de doenças respiratórias”, concluíram Tom Jefferson e colaboradores no estudo.

Ou seja: quando a Cochrane encontra efeito (lavagem de mãos), a intervenção funciona. Quando a Cochrane não encontra efeito (máscaras), os professores atacam o método da Cochrane. Conveniente, não?

Falácia do apelo à popularidade (argumentum ad populum)

Depois da total inadequação do exemplo do  paraquedas, os autores partem para falácia clássica do apelo à popularidade como forma de evidência:

É por essa multiplicidade de evidências que continuamos a observar, em divisões críticas de hospitais ao redor do mundo, pacientes e profissionais de saúde utilizando máscaras (talvez com a exceção de alguns poucos negacionistas).

Vamos destrinchar os dois problemas graves desse argumento. Primeiro problema: confundir consenso com evidência.

Os autores sugerem que, porque profissionais de saúde usam máscaras em hospitais, isso constituiria evidência de eficácia. Esse raciocínio é profundamente falho.

Por esse mesmo critério, poderíamos afirmar que bater três vezes na madeira tem eficácia “consistente” contra má sorte, afinal, milhões de pessoas o fazem diariamente, inclusive profissionais altamente educados. A popularidade de uma prática não a transforma em evidência científica.

Durante décadas, médicos prescreveram sangrias como tratamento para praticamente tudo. A prática era universal, ensinada nas melhores escolas médicas, defendida pelas maiores autoridades da época. Estava errada. Durante anos, médicos recomendaram repouso absoluto após infarto. Era consenso universal. Estava errado, na verdade, aumentava mortalidade. 

A prática popular pode estar errada. Foi errado inúmeras vezes na história da medicina. É exatamente por isso que fazemos ciência, para testar o que parece óbvio, porque frequentemente o óbvio está errado.

Segundo problema: ignorar o contexto das máscaras hospitalares. Os autores mencionam profissionais de saúde usando máscaras em “divisões críticas de hospitais”. Mas há contextos completamente diferentes aqui que eles deliberadamente confundem. Máscaras cirúrgicas em centro cirúrgico são usadas há décadas principalmente para evitar que bactérias da boca e nariz do cirurgião caiam diretamente na ferida cirúrgica aberta. Não estamos falando disso. Estamos falando de doenças respiratórias virais na comunidade. Respiradores N95 e PFF2 são usados por profissionais em contato próximo e prolongado com pacientes sabidamente infectados por patógenos de alto risco como tuberculose. Mesmo assim, a evidência de proteção individual em contexto hospitalar é muito diferente de proteção populacional comunitária, que é sobre o que estamos falando. E aqui, a evidência de RCTs não mostra benefício estatisticamente significativo.

Além disso, os autores esquecem de mencionar um detalhe crucial: profissionais de saúde foram legalmente obrigados a usar máscaras durante a pandemia em praticamente todos os países. Não foi uma escolha baseada em avaliação crítica da evidência, foi imposição institucional e legal. E agora, após anos de normalização dessa prática, com bombardeio constante de artigos em jornais de grande circulação afirmando que a eficácia é “consistente”, não é surpresa que a prática continue. Isso não é evidência científica. É inércia institucional somada a pressão social e normativa. 

O apelo final ao “negacionismo”, sugerindo que quem questiona essa lógica falha é “negacionista”, é apenas a cereja no bolo da desonestidade intelectual. Não, professores. Pedir evidências sólidas antes de afirmações categóricas não é negacionismo. É o mínimo esperado de qualquer um que se diga porta-voz da ciência.

Ou seja, o fato de uma prática ser difundida, ensinada, ou amplamente aceita não substitui a necessidade de ensaios controlados de qualidade. E esses ensaios, quando reunidos na meta-análise mais rigorosa disponível (Cochrane), insistem em não demonstrar benefício estatisticamente significativo. Se a popularidade de uma crença bastasse como evidência, ainda estaríamos fazendo sangrias.

Repetindo a confusão: distorcendo o que pedimos

No pedido original, deixamos absolutamente claro: solicitamos um estudo padrão ouro, do “mesmo nível da Cochrane”. Ou seja, pedimos uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados que mostrasse efeito estatisticamente significativo. Não pedimos “um único RCT”. Pedimos o que a Cochrane fez: juntar todos os RCTs e mostrar um resultado agregado positivo.

Mas os autores, pela segunda vez na resposta, distorcem deliberadamente nosso pedido:

Exigir a existência de um único RCT ‘definitivo’ como condição necessária para reconhecer qualquer efeito de uma intervenção dessa natureza é metodologicamente ingênuo, epistemologicamente equivocado e incompatível com a prática da ciência em saúde pública. 

Vamos ser muito claros sobre o que está acontecendo aqui. Esta é uma distorção retórica clássica conhecida como “espantalho” (straw man): você deturpa o argumento do oponente para uma versão mais fraca e fácil de atacar, depois ataca essa versão distorcida em vez do argumento real.

Nós não pedimos “um único RCT definitivo”. Pedimos evidência do nível da Cochrane. A Cochrane fez exatamente o oposto de confiar em um único estudo: ela juntou sistematicamente todos os RCTs disponíveis até 2023, aplicou critérios rigorosos de qualidade, ponderou os resultados, e chegou a uma conclusão agregada. Isso é o oposto de “um único RCT”.

Os professores chamam de “metodologicamente ingênuo” e “epistemologicamente equivocado” pedir evidências de alta qualidade. Deixem isso afundar por um momento. Dois educadores físicos, escrevendo no maior jornal do Brasil, estão dizendo que solicitar meta-análises de RCTs antes de fazer afirmações categóricas sobre eficácia é “ingênuo” e “equivocado”.

Não é ingênuo. É literalmente o padrão de qualquer agência reguladora séria no mundo. É o que a FDA exige. É o que a EMA exige. É o que qualquer revisão sistemática Cochrane faz. É medicina baseada em evidências, não medicina baseada em opinião de autoridade.

O que é verdadeiramente “metodologicamente ingênuo” é fazer cherry-picking de estudos individuais ignorando meta-análises. O que é “epistemologicamente equivocado” é atacar o método científico quando ele não dá o resultado desejado. O que é “incompatível com a prática da ciência” é fazer afirmações categóricas que você não consegue sustentar quando solicitado.

Se os professores discordam da conclusão da Cochrane, o caminho correto seria publicar uma crítica metodológica formal na literatura científica, apontando erros específicos na seleção de estudos, na análise estatística, ou nos critérios de inclusão. Mas não fizeram isso. Em vez disso, distorcem nosso pedido, atacam um espantalho, e recorrem a estudos de menor qualidade que confirmam suas crenças. E ainda têm a audácia de nos chamar de ingênuos.

E recomendam literatura que não sustenta o que dizem

Na resposta, falando de meta-análises e ensaios randomizados, enviaram um link de um estudo: “Evidence-Based Public Health: Moving Beyond Randomized Trials“.

Na tradução livre: “Saúde Pública Baseada em Evidências: Indo Além dos Ensaios Randomizados”.

Escreveram:

A esse respeito, recomenda-se a leitura do artigo clássico de Cesar Victora e colaboradores, de 2004 (doi: 10.2105/ajph.94.3.400).

Pois bem. No próprio artigo que Gualano e Hallam citam, os autores dizem explicitamente que “para avaliar intervenções em larga escala, estudos com designs de plausibilidade são frequentemente a única opção viável”.

Mas atenção: para máscaras, RCTs não foram “a única opção”. Eles foram realizados, em contextos comunitários e hospitalares, e geraram meta-análises consistentes. Portanto, devem ser integrados, não descartados.

Os autores não recomendam ignorar meta-análises de RCTs quando o resultado não agrada. Eles não dizem para “trocar tudo” por estudos observacionais só porque os RCTs não deram o resultado esperado.

Logo no primeiro parágrafo, eles deixam claro: “Os ensaios clínicos randomizados (ECR) são essenciais para avaliar a eficácia de intervenções clínicas, onde a cadeia causal entre o agente e o desfecho é relativamente curta e simples e onde os resultados podem ser extrapolados com segurança para outros contextos.”

Mais adiante, eles reforçam: “A saúde pública baseada em evidências deve continuar a se basear em RCTs como fonte importante de informação”.

O que Victora e colaboradores defendem é integração, não substituição seletiva. Quando RCTs são factíveis, éticos e foram realizados (como no caso das máscaras), a inferência de probabilidade (vinda dos RCTs) tem precedência. Estudos de plausibilidade e adequação entram para complementar, para entender modificações de efeito, generalizar para contextos diferentes ou quando RCTs realmente não forem viáveis (ex.: leis de capacete, grandes campanhas de saneamento).

O que não é carta branca é fazer cherry picking de estudos observacionais que dão o resultado desejado e jogar fora a meta-análise de RCTs porque ela não agradou. Isso seria exatamente o tipo de viés que o próprio artigo critica.

Resumindo: citar um artigo que pede mais rigor e mais tipos de evidência em conjunto para justificar menos rigor e descarte seletivo de RCTs é, no mínimo, uma leitura bastante seletiva.

Políticas públicas

Por fim, o texto não faz advocacy político, não prescreve políticas públicas, nem se vale de apelos à autoridade.

Os autores escrevem, no maior jornal do Brasil, que as máscaras possuem um “consistente, efeito protetor” sem evidências científicas para isso e ainda dizem que não prescreve políticas públicas. Como chegaram nessa conclusão é um mistério.

Nossa checagem

Nossa checagem foi única e exclusivamente sobre a afirmação categórica, sem respaldo, da eficácia das máscaras contra a COVID-19 ou outras doenças respiratórias. Os autores seguem, depois, afirmando das críticas que fizeram, no texto, a outro estudo. Mais sobre isso pode ser lido aqui.

Para terminar, vale recordar as palavras de Tom Jefferson, autor principal da meta-análise Cochrane, em entrevista à jornalista Maryanne Demasi: “Nós os chamamos de ‘ativistas estridentes’. Eles são ativistas, não cientistas. Fanáticos estridentes conseguiram envenenar toda essa discussão e tentar transformá-la em uma questão de preto e branco… e se baseiam em estudos terrivelmente falhos”.

Isso resume bem o que vimos aqui: quando evidências de alta qualidade não apoiam uma narrativa, em vez de rever posições, alguns preferem atacar o método científico ou recorrer a seleções enviesadas. A atitude científica exige humildade perante os dados, não afirmações categóricas sem base.

E uma comparação que vale a pena lembrar: na checagem anterior de um artigo na Folha feita pelo MPV (2024), quando questionamos afirmações categóricas sobre máscaras e vacinas, a resposta veio do jurídico da Folha: foram meras opiniões pessoais dos autores. Não tentaram forçar evidências, nem atacar o método. Simplesmente admitiram a limitação. Foi uma postura mais honesta, ainda que tardia.

Já nesta resposta de 2026 (Gualano e Hallal), optou-se por frases prontas como “ausência de evidência não é evidência de ausência”, cherry picking de estudos isolados e críticas ao RCT quando ele não dá o resultado desejado. O contraste é claro: onde antes houve admissão, agora há insistência e distorções. Isso não fortalece a ciência; enfraquece a credibilidade de quem fala em nome dela.

O pior de tudo é que o artigo de Gualano vem acompanhado de uma linguagem incendiária. Os que discordam e consequentemente pedem evidências? São “extremistas”. E para esses, Gualano pede “responsabilização”, ou seja, processo e prisão. 

Portanto, isso deixa de ser apenas erro científico. Torna-se autoritarismo intelectual amplificado no maior jornal do Brasil.

Uma curiosidade e um mistério

Em setembro de 2024, o site da Universidade de Oxford publicou uma notícia: “Um grande estudo clínico demonstra que a hidroxicloroquina oferece prevenção moderada da COVID-19”.

Além de terem feito um ensaio clínico deles mesmos, de Oxford, eles fizeram uma meta-análise de todos os estudos da HCQ em profilaxia. Assim como na meta-análise da Cochrane, todos os estudos também são ensaios randomizados “padrão ouro”.

Sobre essa intervenção, Pedro Hallal, um dos autores da resposta enviada via Ombudsman da Folha, afirmou que havia: “confirmações de sua ineficácia”.

Veja o gráfico das duas meta-análises aqui. À esquerda, o da Cochrane, à direita, a de Oxford.


O mistério é tentar entender como funciona a cabeça das pessoas que olham para a meta-análise da esquerda e ainda insistem que há eficácia e, ao mesmo tempo, olharem para a meta-análise da direita, a qual o diamante está descocado, e dizem algo como “ineficácia comprovada”.

Para quem quer se aprofundar

Reanálise estatística do estudo de Bangladesh feita por pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, EUA.
Re-analysis on the statistical sampling biases of a mask promotion trial in Bangladesh: a statistical replication | Trials | Springer Nature Link

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Redação MPV

Equipe de jornalismo do MPV - Médicos Pela Vida, uma associação médica com milhares de associados que se notabilizou no atendimento da linha de frente da COVID-19.

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