Como a crença no “desequilíbrio químico” pode impedir que você fique bem?

Estudos demonstram que a crença de que a depressão é a consequência de um desequilíbrio químico cerebral é um fator que pode determinar nossa incapacidade de melhorar nosso estado subjetivo.

Aqui neste espaço venho trazendo muitas informações sobre os problemas fisiológicos, os efeitos físicos nocivos que podem ser alimentados pelos psicofármacos e a forma como a indústria farmacêutica gasta milhões para impedir que essas verdades sejam amplamente conhecidas.

No entanto, há um aspecto, digamos, mais filosófico – ou psicológico, se preferirem – que é extremamente importante na discussão sobre a psiquiatria e o tratamento patologizante e medicalizado de nossa subjetividade. É sobre isto que queria falar com vocês hoje.

Hoje em dia é extremamente normalizada a ideia de que podemos recorrer a um remédio para tratar de um problema subjetivo. Na Inglaterra – onde, diferente do Brasil, temos dados precisos sobre a generalização do uso de remédios psiquiátricos – 17% das pessoas fazem uso de antidepressivos, e esta proporção aumenta para 23% entre as mulheres. É provavelmente mais comum tomar um remédio psiquiátrico do que fazer atividade física regular.

Nem sempre foi assim. Aliás, até pouco tempo atrás não era.

Para chegar ao ponto em que nos encontramos hoje, em que a medicalização da subjetividade é vista como algo trivial, foi necessário um esforço de muito tempo e muito dinheiro por parte dos principais interessados: a indústria farmacêutica e a corporação médica.

Entre 1992 e 1996, na Inglaterra, o Royal College of Psychiatrists junto ao Royal College of General Practitioners fizeram a campanha “Defeat Depression” (derrote a depressão), cujo intuito era alegadamente de “reduzir o estigma” e incentivar a “busca de tratamento precoce”, o que na verdade se traduz em convencer o público de que a depressão era uma condição médica que deveria ser abordada com o uso de remédios prescritos.

No início e no fim da campanha foram conduzidas pesquisas com o público perguntando aos participantes, entre outras coisas, quais eles acreditavam que eram as causas da depressão e como ela deveria ser tratada. Em dezembro de 1991, já era majoritária a opinião entre os entrevistados (73%) de que a depressão era uma “condição médica como qualquer outra”, tendo esse percentual passado a 81% ao final da campanha, em 1997.

No entanto, ainda que nesse campo o estrago já estivesse feito, os motivos indicados como causa da depressão estavam majoritariamente indicados como experiências de vida (luto ou desemprego – 77%; problemas financeiros – 74%; stress, solidão ou isolamento – 71%; fim de relacionamentos ou divórcio – 67% e até depressão pós-parto – 54%) enquanto a percepção de que poderia haver uma mudança biológica no cérebro foi apontada por apenas 33% dos entrevistados. Além disso, quando perguntados sobre que tipo de ajuda deveria ser oferecido às pessoas deprimidas apenas 16% responderam antidepressivos em comparação a 91% que indicaram terapia. Por fim, 78% afirmaram que os antidepressivos eram viciantes e 87% afirmaram o mesmo sobre tranquilizantes.

O resultado dos seis anos de “conscientização” não foi excelente, mas mostrou o potencial da pesada propaganda: em 1997, o percentual das pessoas que viam os antidepressivos como saída subiu em 50%, passando para 24% dos entrevistados vendo os remédios como resposta para a depressão. Os que os viam como viciantes diminuiu dos 78% para 74%, e em relaçao aos tranquilizantes passou de 87% para 84%. Outro dado relevante é que o percentual dos que viam os antidepressivos como eficazes em 1991 (46%) aumentou em 14 pontos percentuais e atingiu 60% em 1997. Além disso, aqueles que afirmavam que a depressão podia ser causada por modificações biológicas no cérebro subiu de 33% para 43%.

Era apenas o começo de uma transformação drástica que veríamos nas décadas seguintes. A artilharia pesada foi posicionada, e veiculada insistentemente. Os comerciais abaixo, de Zoloft (sertralina), veiculados na televisão nos EUA em maio de 2001 (o primeiro deles, que fala sobre depressão) e em 2004 (o segundo, sobre “transtorno de ansiedade social”) são duas peças hoje já considerados “clássicos” da difusão da concepção do “desequilíbrio químico” cerebral como causa da depressão e ansiedade.

Comerciais de Zolot.

Esta visão prevaleceu ao ponto de se tornar parte do “senso comum” o mito de que a serotonina está relacionada à depressão, algo já repetidamente desbancado e que foi novamente repelido pela revisão conduzida por Joanna Moncrieff em 2022.

O que queremos destacar neste texto é o efeito subjetivo que isso causa nas pessoas, e para isso trazemos dois estudos citados por Moncrieff em seu recém-lançado livro “Chemically imbalanced: the making and unmaking of the serotonin myth”.

O primeiro é um estudo conduzido pela Universidade de Wyoming em 2013, que recrutou voluntários que haviam passado por um episódio depressivo. Eles foram então divididos em dois grupos que receberam os resultados de um teste falso que afirmava, para um dos gruposm que sua depressão era causada por um desequilíbrio químico em seu cérebro, enquanto o outro grupo recebia um resultado em que isso não era apontado. A pesquisa concluiu que entre os participantes a quem se disse que havia um desequilíbrio químico cerebral houve uma redução na auto-culpabilização, piores prognósticos do quadro, aumento do pessimismo e piora da regulação do humor negativo e levou os participantes a verem a psicofarmacologia como mais eficaz do que a psicoterapia.

Outro estudo, realizado em 2020 em Boston entrevistou pacientes e constatou que aqueles que acreditavam na explicação de um desequilíbrio químico como origem de sua depressão tinham menos probabilidade de melhora e e menores expectativas de recuperação.

O que estes estudos apontam é de importância fundamental: a nossa percepção sobre a causa de nosso sofrimento subjetivo é capaz de determinar nossa probabilidade de melhorar dele. A ideia de que nosso sofrimento não é determinado por condições de vida, mas sim por fatores biológicos que estão completamente fora de nosso controle é um fator de desempoderamento, nos induzindo a acreditar que estamos “destinados” a sermos infelizes e que não há nada que possamos fazer a respeito. Nos torna passivos e condenados a nos percebermos como fadados a permanecer naquela condição.

Uma derivação disso de extrema importância é a forma como entendemos a depressão em geral: se como uma doença ou se como um estado transitório que acomete a todos os seres humanos em determinados momentos por determinadas circunstâncias existenciais. Quando entendemos que a depressão não é uma doença, mas sim um estado transitório, percebemos que há muito mais que podemos fazer por nós mesmos do que nos sujeitarmos a tratamentos ilusórios que não são capazes de corrigir nenhum “desequilíbrio químico” (que não há) e, na verdade, são indutores de diversos novos problemas fisiológicos. Percebemos que atitudes como mudar nossas relações, nosso meio, nosso modo de vida, nossos hábitos são ferramentas muito mais poderosas para nos transformarmos.

É urgente, portanto, demolir o mito de que nossa subjetividade está além de nossa interferência e deve ser delegada a especialistas e explicações pseudo-científicas com suas “balas mágicas”.


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Fernando Bustamante

É psicanalista. Escreve sobre saúde mental, psiquiatria e indústria farmacêutica no psique.substack.com

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