“A medicação roubou minha maternidade e minha vida”

Ninguém saiu do protocolo: o que o caso Lindsay Clancy revela sobre a psiquiatria contemporânea
Foto: reprodução

Está sob os holofotes da sociedade estadunidense o caso Lindsay Clancy. Uma mãe que matou em 2023 seus 3 filhos pequenos: Cora, de cinco anos; Dawson, de três anos, e Callan, de oito meses.

Em uma sociedade que transforma em mercadoria a espetacularização de tragédias, crimes e calamidades, poderia ser só mais um produto com apelo comercial. Mas o caso Lindsay Clancy expõe feridas muito sérias e profundas de nossa sociedade, o que faz dele um evento de grande relevância – inclusive para discutirmos os problemas dos cuidados em “saúde mental”.

Nos pouco mais de quatro meses entre a primeira consulta psiquiátrica de Lindsay e o crime cometido, ela recebeu treze medicamentos psicotrópicos diferentes: vários antidepressivos, uma sucessão de benzodiazepínicos, um hipnótico, um antipsicótico, um estabilizador de humor e um antidepressivo tricíclico. Estes foram prescritos por pelo menos cinco profissionais distintos, em consultas quechegaram a durar tão pouco quanto de dez a dezessete minutos (registros documentados) ou até 25 minutos, de acordo com Tufts; boa parte por telemedicina. (1) Sempre que ela relatou uma piora aos médicos, a resposta não foi suspender o uso dos remédios que estavam piorando o quadro, mas sim trocar uma droga por outra, aumentar a dose ou acrescentar mais um remédio ao coquetel. A amitriptilina, o último antidepressivo introduzido, teve a dose dobrada na véspera do crime, na mesma consulta em que Lindsay relatou piora da ansiedade, dificuldade em dormir e nenhuma melhora. Como veremos, isso não foi uma negligência ou uma exceção, mas o padrão de cuidado sendo aplicado à risca.

Seu marido, Patrick, posteriormente disse que ela havia tomado 13 medicações em apenas quatro meses. O registro aponta cerca de trinta prescrições no total, para doze a treze medicamentos distintos, e só a psiquiatra que mais a atendeu, Tufts, assinou doze delas. Patrick disse aos médicos em 6 de dezembro, pouco mais de um mês antes do crime, que ela estava “dez mil vezes pior desde que tomou a medicação” e perguntou aos médicos se não poderiam parar e “começar do zero”. A resposta deles foi aumentar a dose de Seroquel (quetiapina). (2)

Em 20 de dezembro de 2022 Lindsay dá entrada em um programa de hospitalização em meio período no hospital de mulheres e crianças em Rhode Island. Eles a encaminharam de volta para os mesmos médicos que a estavam tratando até então.

No dia 24 de janeiro de 2023 ela estrangula os três filhos, em seguida corta os pulsos e o pescoço e se joga pela janela, ficando paraplégica como consequência da queda.

No julgamento, seu agora ex-marido, Patrick, testemunhou afirmando que ela estava, um mês antes do crime, muito deprimida e havia perdido muito peso. Tanto ele quanto sua mãe, sogra de Clancy, testemunharam sobre como era contrário a qualquer comportamento prévio de Clancy o ímpeto homicida que a levou a matar seus filhos. Patrick entrou com um processo por prática médica negligente, afirmando que as queixas de Clancy quanto aos efeitos negativos dos remédios foram ignoradas.

O psiquiatra Josef Witt-Doering, conhecido por trabalhar com a desprescrição de remédios psiquiátricos, disse:

“uma coisa realmente interessante, e o que eu quero que as pessoas entendam sobre esse caso, é que isso poderia realmente acontecer com qualquer pessoa. Porque, quando olhamos para o que aconteceu, sim, definitivamente houve coisas que deram errado no atendimento que ela recebeu, mas esse é o tipo de atendimento que todo mundo recebe. E então acho que o mais interessante para entender tudo isso é realmente como isso aconteceu.

Então, o que eu quero apresentar ao público é o seguinte: você pode ouvir um caso como esse e pensar: ‘Houve algum tipo de negligência médica grosseira acontecendo. Esses médicos estavam fazendo algo completamente fora do padrão.’ E esse realmente não é o caso. Você sabe, essa é uma daquelas situações em que o próprio padrão de atendimento pode acabar prejudicando as pessoas.

Então, há algumas coisas que eu quero estabelecer para que as pessoas entendam. Nós temos essa mãe, Lindsay Clancy. Sem nenhum histórico prévio de violência ou coisa parecida, e uma mãe amorosa. Todo mundo que apareceu e falou sobre ela disse que ela sempre foi uma ótima pessoa. Ela trabalhava como enfermeira, ajudando a trazer bebês ao mundo, era feliz no casamento.

Agora, isso é uma coisa importante: o marido dela, agora ex-marido, está ao lado dela neste caso. Na verdade, ele está entrando com uma ação por negligência médica junto com ela contra os médicos.

Isso é interessante porque, geralmente, quando pensamos em ‘por que uma mãe mataria os próprios filhos?’, uma das explicações alternativas é: ‘Havia um caso extraconjugal acontecendo? Foi algum tipo de assassinato por vingança? O relacionamento estava sob muito estresse?’ Nada disso é verdade.”

Três coisas são fundamentais aqui. Primeiro: Todas as pessoas de seu convívio próximo, inclusive os que mais sofreram com a morte das crianças, como seu ex-marido e sua sogra, atestam que Lindsay era uma mãe amorosa e dedicada.

Segundo: todo o histórico em relação ao tratamento psiquiátrico que recebeu demonstra que, desde a introdução do primeiro antidepressivo (sertralina) ela demonstrou intensos efeitos adversos, o que deveria levar à imediata suspensão do uso dos remédios, mas que levou os médicos não a suspenderem seu uso, mas sim a intensificar com mais e mais remédios. Lindsay estava há meses tomando benzodiazepínicos, agora em redução de dose mas ainda detectáveis no sangue no dia do crime, e sob o efeito de um novo antidepressivo cuja dose acabara de ser dobrada.

Terceiro: como atesta o psiquiatra Josef Witt-Doering isso pode acontecer com qualquer um. E isso é o mais importante: o que ocorreu com Lindsay é a consequência mais extrema de um tipo de tratamento que é o padrão na psiquiatria contemporânea.

Sim, é verdade que ela tomou 13 remédios em quatro meses, e isso pode parecer muito, mas a verdade é que tanto a polifarmácia – o uso de diversos medicamentos de forma concomitante – quanto a cascata iatrogênica – a introdução consecutiva ou a troca de um medicamento pelo outro em decorrência de efeitos adversos induzidos pela primeira medicação – são fatos corriqueiros na clínica psiquiátrica. Como complementa Josef em seguida: “Nós temos um sistema de saúde mental atualmente em que os médicos realmente não sabem o que fazer se os medicamentos não estiverem funcionando. Eles continuam dizendo ‘vamos tentar isso, e isso, e isso’ e aí você acaba tendo essas consequências muito desastrosas.”

Se buscarmos, encontraremos outros casos documentados, como o caso de David Crespi, um executivo de banco que estava sofrendo com depressão, insônia e ansiedade. Primeiro, recebeu a prescrição de Prozac (fluoxetina), mas logo estava tomando também trazodona, lunesta (ezsopiclone), ambien (zolpidem) e Paxil (paroxetina). Ele matou suas duas filhas gêmeas de cinco anos em um surto, e em seguida ligou para a polícia confessando o crime. Ou Andrea Yates que, sob o efeito de diversas drogas psiquiátricas, afogou seus cinco filhos pequenos na banheira. Ou David Carmichael, que assassinou o filho de 11 anos sob influência de Paxil (paroxetina). Sua filha mais velha disse: “estou 100% convencida de que a droga desempenhou um papel no que aconteceu. Absolutamente. Meu pai não é o tipo de pessoa que mataria qualquer um, especialmente seu próprio filho. Isso simplesmente mudou totalmente seu comportamento, mudou a forma como ele via o mundo quando ele estava tomando esses antidepressivos. E quando ele parou de tomá-los ele voltou a ser o homem que era antes, isso não faz sentido.” (3).

Fiquemos com apenas estes casos, que ilustram suficientemente que tais efeitos são verdadeiros e, quando estamos falando de centenas de milhões de pessoas tomando esses remédios diariamente, ocorrem e ocorrerão em número considerável. Devemos nos perguntar então qual seria o número de casos “aceitável” para que continuemos a nos comportar como se isso fosse algo a ser tratado como um “preço a se pagar”. Como disse a GlaxoSmithKline, fabricante do Paxil, após o caso de Carmichael: “O caso de David Carmichael é claramente uma tragédia, mas medicamentos como a paroxetina (Paxil) ajudaram muitas pessoas”.

Essa resposta é aceitável? Não se pode responder isso sem pensar como estamos lidando com as pessoas que procuram ajuda para seus problemas nos consultórios psiquiátricos.

No próprio julgamento de Lindsay, tanto Jennifer Tufts, psiquiatra responsável por parte de seu tratamento, quanto Sejal Shah, psiquiatra do Brigham and Women’s Hospital, afirmaram que indivíduos com depressão podem apresentar baixos níveis de serotonina, reproduzindo uma versão da velha hipótese serotoninérgica para a qual não há evidência consistente, mas que continua servindo para corroborar a prática clínica que vê na administração de psicofármacos a via privilegiada para lidar com problemas subjetivos (4).

A psiquiatra Jennifer Tufts depõe no julgamento de Lindsay Clancy

Não se considera em momento algum que tipo de tormento subjetivo poderia estar passando Lindsay, uma enfermeira que acabara de ter seu terceiro filho, em uma sociedade em que as mães são colocadas em um difícil papel de se responsabilizar de forma integral pelo cuidado com os filhos sem nenhum tipo de apoio comunitário, algo que nenhuma outra sociedade humana chegou a fazer da mesma forma que a nossa, e que significa um fardo de peso descomunal. Além de sabe-se lá que outras questões poderiam estar atravessando a vida de uma mulher que, até recorrer a um psiquiatra, estava apenas passando por um momento difícil na vida. E que, graças à solução medicamentosa proposta, entrou numa espiral de torturas incessantes que desembocou no homicídio de seus filhos e numa tentativa de suicídio que a deixou paraplégica.

Outro ponto relevante a destacar é que Tufts afirmou considerar que Lindsay tinha um “poor insight”, ou seja, uma compreensão prejudicada sobre sua própria condição pelo fato de que ela disse à médica que os remédios estavam fazendo com que ficasse pior, enquanto Tufts considerava que era a depressão que a estava fazendo ficar pior. Essa percepção de Lindsay sobre os remédios é corroborada pelo testemunho de Amy Bevins, sua amiga há mais de trinta anos, que relatou que dias antes do crime Lindsay havia dito a ela que os remédios estavam causando “pensamentos sombrios” e que ela estava reduzindo a dose. Em uma nota em seu celular Lindsay foi ainda mais clara e explícita: “a medicação roubou minha maternidade e minha vida”. Ela sabia bem qual era o alcance e a fonte do que estava passando.

Esse ponto é fundamental, porque expressa um ponto cego crítico no tratamento psiquiátrico: é um senso comum entre os médicos que os pacientes não possuem capacidade de avaliar criticamente sua própria condição devido a suas “patologias mentais”, e que o médico compreende melhor a situação subjetiva da pessoa que atende do que ela própria. Lindsay chegou a trocar mensagens com sua mãe e sua sogra afirmando que os medicamentos provavelmente haviam causado algum dano em seu cérebro pois sentia que as drogas haviam piorado drasticamente sua condição. No entanto, não apenas sua psiquiatra negava a percepção absolutamente correta de Lindsay sobre os efeitos dos medicamentos, como, ao desautorizá-la, seguiu prescrevendo mais medicamentos e aumentando as doses.

O julgamento de Clancy está sendo acompanhado por milhões. Muitos querem a responsabilização de Tufts pelo tratamento negligente, e Patrick e Lindsay estão de fato processando ela. Contudo, Tufts acabara de sair de sua residência e estava reproduzindo o que aprendeu (5). Isso significa que, se é verdade que tem responsabilidade pelo coquetel de drogas administrado a Lindsay, por não ouvir suas queixas, por administrar mais e mais remédios, ela não está agindo fora mesmo padrão reproduzido por psiquiatras de instituições de ponta, como Sejal Shah. Estes, por sua vez, estão reproduzindo o “conhecimento científico” (sic) que se origina nas publicações patrocinadas pela indústria farmacêutica, e em empresas que lucram bilhões com a venda destes remédios. Elas seguirão impunes?

O que o caso de Lindsay Clancy nos apresenta, estruturalmente, é gigantesco: como a prática clínica contemporânea pode institucionalmente produzir resultados catastróficos como esse sem que nenhum de seus agentes individualmente esteja agindo em desacordo com os protocolos estabelecidos?

Quantos casos como o de Lindsay Clancy serão necessários para que levemos a sério os perigos envolvidos nos padrões de tratamento psiquiátrico presentes em todo o nosso sistema de saúde?

Quando esse texto terminou de ser escrito, o julgamento de Lindsay ainda estava ocorrendo em Plymouth, Massachusetts. O júri começou a deliberar em 27 de agosto de 2026, entre opções que iam da condenação por homicídio em primeiro grau à inimputabilidade por falta de responsabilidade criminal. Seja qual for o veredito, as questões aqui colocadas permanecem pertinentes, pois não tratam apenas de Clancy e sua responsabilidade individual, mas de todo um sistema que precisa urgentemente ser revisto.


1 – Registro das prescrições e médicos responsáveis entre 15/09/2022 e 23/01/2023, reconstituído a partir dos depoimentos apresentados no julgamento:

15/09/2022 — sertralina 25 mg (J. Tufts).

21/10 — lorazepam 0,5 mg (Tufts).

26/10 — hidroxizina 25 mg, lorazepam 1 mg, buspirona 5 mg (Tufts).

02/11 — lorazepam 0,5 mg (Tufts).

09/11 — buspirona 5 mg (Tufts).

16/11 — trazodona 50 mg (K. Izadpanah.

21/11 — fluoxetina 10 mg (J. Paul).

25/11 — zolpidem 5 mg, mirtazapina 7,5 mg, clonazepam 0,5 mg (Paul).

30/11 — quetiapina 25 mg (R. Jollatta).

06–09/12 — diazepam 5 mg (repetido) e quetiapina 100 mg (Jollatta).

13/12 — diazepam 2 mg (Jollatta).

16/12 — lamotrigina 25 mg (Tufts).

19/12 — diazepam 2 mg e quetiapina ER 300 mg (Jollatta).

21–22/12 — quetiapina 100 mg → 25 mg (Jollatta).

05/01/2023 — trazodona 50 mg e lorazepam 1 mg (A. Goodheart, na alta do Hospital McLean).

09/01 — diazepam 5 mg (Tufts).

12/01 — trazodona 150 mg (Tufts).

13/01 — diazepam 2 mg (Jollatta).

16/01 — diazepam 2 mg e amitriptilina 10 mg (Tufts).

19/01 — diazepam 2 mg (Jollatta).

23/01 — diazepam 2 mg (Tufts); a amitriptilina fora aumentada para 20 mg nesse mesmo período.

São treze compostos distintos (doze, se não se contar a hidroxizina, anti-histamínico), um número condizente com o relato do marido, Patrick, de treze medicamentos, e com a estimativa da defesa de “até doze”. Prescritores: J. Tufts (Aster Mental Health), J. Paul e R. Jollatta (South Shore Health), K. Izadpanah e A. Goodheart (McLean). No momento das mortes, cinco metabólitos de benzodiazepínico ainda estavam presentes no soro, em boa parte deriváveis do próprio diazepam, e não cinco fármacos distintos. A compilação datada das prescrições é do dossiê do documentário As Prescribed a partir dos depoimentos; a cronologia clínica e as durações de consulta (17 min em 06/01; ligação de 10 min de Goodheart após a alta) constam da cobertura do julgamento (Boston Globe, CBS Boston, CNN) e das alegações factuais das petições de erro médico de Lindsay e Patrick Clancy.

2 – petição de 784 páginas (Norfolk Superior Court, janeiro de 2026), citada pela cobertura da imprensa.

3 – https://www.bbc.com/news/av/magazine-40744486

4 – Jennifer Tufts afirmou, ao explicar o funcionamento dos ISRS: “It increases the serotonin, and many individuals with depression have low levels of serotonin” (“ele aumenta a serotonina, e muitos indivíduos com depressão apresentam baixos níveis de serotonina”). TUFTS, Jennifer. Depoimento no julgamento de Lindsay Clancy, Day 10, 10 ago. 2026, aproximadamente 22min56s. Transcrição disponível em: Rev, MA v. Lindsay Clancy, Day 10.

Já a psiquiatra Sejal Shah, ao explicar o significado de “SSRI”, afirmou: “Oftentimes in depression, patients are lacking serotonin in the spaces in their brain” (“Frequentemente, na depressão, os pacientes apresentam falta de serotonina nos espaços em seu cérebro”) e, em seguida: “For patients with depression, they’re often lacking that ability to have enough serotonin in those spaces” (“Para os pacientes com depressão, frequentemente falta-lhes a capacidade de ter serotonina suficiente nesses espaços”). SHAH, Sejal. Depoimento no julgamento de Lindsay Clancy, Day 5, 3 ago. 2026, aproximadamente 3h32min30s–3h32min40s. Transcrição disponível em: Rev, MA v. Lindsay Clancy, Day 5.

5 – Tufts fez residência em psiquiatria na Boston University / Boston Medical Center e ingressou na Aster Mental Health em agosto de 2022, poucas semanas antes de atender Lindsay em setembro. fonte: Boston Globe; Duxbury Clipper.


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Foto de Fernando Bustamante

Fernando Bustamante

É psicanalista. Escreve sobre saúde mental, psiquiatria e indústria farmacêutica no psique.substack.com