Como seria um homem brutalmente honesto?

Chamaram de teoria da conspiração. Oxford chama de meta-análise.

Publicado originalmente em inglês no Brownstone Institute.

Diógenes foi um dos mais icônicos filósofos da Grécia antiga. Ele perambulava pelas ruas de Atenas, à luz do dia, com uma lanterna acesa. Quando perguntavam o motivo dessa cena insólita, Diógenes dizia que procurava um homem honesto. Ele nunca achou.

Mais de dois mil anos depois, o questionamento de Diógenes continua válido, atual, como boa parte dos ensinamentos dos filósofos da Grécia antiga. Recentemente, eu me lembrei dele ao me deparar com uma análise de um colunista em um dos maiores jornais do Brasil. Esta análise, que trata da eficácia da ivermectina durante a pandemia, ressurgiu quando a pandemia voltou aos noticiários com as revelações do diário de Anthony Fauci, o Czar da resposta à COVID-19 do governo dos EUA.

Na verdade, com a somatória de evidências desde o início do drama COVID-19, juntamente com fatos elencados e mentiras comprovadas vagarosamente reveladas, eu passei a imaginar o que uma pessoa realmente honesta diria hoje sobre esse período da história. Neste artigo, eu proponho este exercício. Antes, vamos um pouco para o contexto.

Medicamentos para a Covid-19

Em teoria, eu nem precisaria introduzir muito o assunto. Qualquer ser humano que viveu a pandemia e leu minimamente o noticiário sabe que as propostas da hidroxicloroquina e da ivermectina contra a COVID não deram em nada. Começaram como possibilidades científicas, esperanças. Mas logo foram descartadas pelas autoridades. Depois disso, os que falavam do assunto foram tratados como “teóricos da conspiração”. Os que continuaram insistindo, posteriormente, viraram tema de estudos sobre desinformação na saúde ou de extremismo político. 

Tudo foi tão grave que até médicos, mesmo depois de agências regulatórias como a OMS recomendarem veementemente contra, continuaram receitando contra a COVID para seus pacientes. Alguns deles foram multados, outros perderam suas licenças para atuarem na medicina. Neste ponto, depois de tudo tão massivamente esclarecido, o assunto mudou de patamar: deixou de ser ciência e virou pauta para humoristas.

Quando vira assunto para humoristas é o ápice do conhecimento consolidado de uma sociedade. Significa que não dá para conversar mais a sério com os poucos que sobraram repetindo a sandice. Sobrou fazer piadas. Um exemplo é a comediante e influenciadora brasileira Maria Bopp, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram. Ela produziu um samba. A letra fala sobre pessoas que negam a ciência, como as que acreditam que a terra é plana. Esse é apenas um dos exemplos, entre diversos quadros de humor, charges e piadas.

Nos EUA aconteceu a mesma coisa. A Forbes fez uma matéria sobre quem usava o humor para combater a desinformação da ivermectina como solução para a COVID-19. Humoristas da televisão foram à forra com ambos os medicamentos. O tom geral era de deboche.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Antes de falar do texto do colunista Frankito (Franklin Weise), que se define como analista de dados, no Jornal O Estado de S. Paulo, onde ele trata da ivermectina, vou falar um pouco da cloroquina e sua irmã um pouco mais nova, mas septuagenária, a hidroxicloroquina. 

Estamos em 2026. Hoje nós abrimos o site da Universidade de Oxford. No site, nós temos uma notícia publicada: “Hidroxicloroquina oferece prevenção moderada da COVID-19, mostra grande ensaio clínico”. Ou seja, o assunto era motivo de chacota, piada, sinônimo de gente maluca da cabeça em toda a mídia, mas está noticiado como eficaz no site da universidade que, em qualquer ranking sério, fica classificada entre a primeiro, segundo ou terceiro lugar em qualidade de ensino e produção científica. Oxford, dependendo do ano, rivaliza nos rankings com Harvard e MIT.

Eu queria ir direto para falar do texto de Frankito ou já fazer o exercício do “homem brutalmente honesto”, junto com você, leitor, mas preciso explicar um pouco sobre essa notícia no site de Oxford. É necessário. O contraste entre o assunto ser chacota e depois lermos essa notícia da universidade que representa o bastião mundial da ciência e racionalidade, você há de concordar, é imenso.

Só virou notícia no site de Oxford porque HCQ contra a COVID atingiu o nível máximo de evidência científica que um medicamento pode atingir. Além do ensaio clínico deles, “padrão ouro”, do uso da hidroxicloroquina em profilaxia pré-exposição, Oxford fez uma meta-análise, juntando todos estudos anteriores do uso do medicamento neste contexto, também “padrão ouro”. Profilaxia pré-exposição é quando você toma o medicamento antes de ter contato com o vírus, para reduzir ou anular sua chance de contraí-lo.

Exatamente por ser o nível máximo evidência que Oxford bateu o martelo e informou na notícia que é eficaz, sem deixar margens para dúvidas. Para ser ter como referência, 91% dos tratamentos usuais da cardiologia não possuem o nível máximo de evidência (meta-análise de múltiplos ensaios RCTs – randomized controlled trials). Ou seja, HCQ contra a COVID está no seleto grupo dos medicamentos mais comprovados que existem. Além disso, não foi apenas publicado o estudo. Oxford publicou o estudo e fez uma notícia em seu website, dando o aval inequívoco da instituição. Não dá para as pessoas tentarem mover as traves do gol com o argumento idiota de que “não é estudo de Oxford, mas de pesquisadores de Oxford”.

A meta-análise deu 20% de eficácia. Mas mesmo assim, algumas perguntas ficam. Por que levaram mais de dois anos para publicarem os resultados? Sim, o estudo ficou numa gaveta durante dois anos. Para que pressa numa pandemia? A segunda pergunta é: por que, no meio do estudo, eles alteraram o desfecho para soroconversão? Os estudos de vacinas não utilizaram isso. Todos utilizaram o exame PCR. Soroconversão mede apenas se o corpo produziu anticorpos, não se a pessoa ficou doente de verdade. Será que, alterando o desfecho, o resultado fica, como explícito na manchete, “moderado”?

Sim, é isso mesmo. O estudo de Oxford constatou uma redução de 57% nos casos de COVID-19 sintomáticos. Antes de continuar com o artigo, deixa eu chocar as pessoas um pouco com uma afirmação: se isso tivesse sido usado, o mundo não precisava parar e a COVID teria sido contida ainda em 2020. A pandemia teria sido um “não evento”, em vez de ter sido o maior trauma que o mundo passou desde a segunda guerra mundial, além da maior transferência de renda dos pobres para os ricos da história da humanidade. Bem, mas a hidroxicloroquina é barata, sem patentes. Por outro lado, ninguém teria lucros bilionários.

Para fechar o assunto HCQ, este estudo de Oxford é em profilaxia. Neste uso, temos o nível máximo possível de evidência científica. Não dá para ser mais alto. Em tratamento precoce, que é quando você começa a tomar o medicamento logo após apresentar sintomas da COVID, temos hoje 38 estudos. Entre eles, 17 medem redução de mortalidade. E entre esses 17, todos, absolutamente todos, por unanimidade, mostram redução de mortalidade, com uma média de em 76% de redução de mortes. Ou seja, em tratamento precoce, não é o nível máximo, mas é um bom nível, que poucos medicamentos possuem.

Notinha extra ainda: se aparecer algum “entendido” de ciência para falar que estudos observacionais de tratamentos não comprovam eficácia, só jogue no colo dele essa revisão da Cochrane, que explica que não existem diferenças substanciais de resultados, entre estudos “padrão ouro” e observacionais, quando o resultado é alto. Veja seu “entendido” ficar mudo.

E bem, por que, afinal, falei da hidroxicloroquina aqui, neste texto, que trata do ataque de Frankito à ivermectina? Primeiramente, pelo contraste. E a segunda coisa é que Frankito escolheu falar da ivermectina,  justamente a escolha que permite evitar a questão da hidroxicloroquina. Imagine-o confrontado assim: “quem sabe mais, você ou Oxford?”. 

Ivermectina e Itajaí

Frankito publicou no Estadão a seguinte coluna: “Falso milagre da ivermectina contra a covid e o Censo do IBGE”. Neste artigo, ele se propõe a analisar o estudo do uso da ivermectina em profilaxia pré-exposição, feito em Itajaí, no litoral de Santa Catarina.

Vamos um pouco para os detalhes. Distribuíram, na cidade de Itajaí, em diversos postos de saúde, ivermectina gratuitamente para a população. Uma parte da população foi buscar, outra não. Ficou anotado quem foi buscar. A partir daí foi possível acompanhar três desfechos distintos: risco de infeção, redução de hospitalizações em quem tomou, e redução de mortes em quem tomou. Tudo pelo que ficou anotado no sistema de saúde da cidade.

Frankito argumenta que a comparação de redução de infecções entre quem tomou ou não tomou ivermectina ficou prejudicada porque o último CENSO demográfico era antigo, de 2010, e o número total da população era por uma projeção do IBGE, envolvendo nascimentos e mortes. E quando foi feito um novo CENSO, em 2023, a cidade possuía muito mais habitantes do que a projeção. A crítica é válida neste aspecto.

Entretanto, o estudo possui mais dois desfechos além do risco de infecção: a redução de hospitalizações e a redução de mortes entre quem tomou. E nestes dois casos, foi usado outro tipo de pareamento. Neste caso, não estimado por um dado do IBGE, mas sim pareamento por comorbidades. Chama-se “PSM – propensity score matching”.

Este método trabalhou para reduzir elementos confundidores da população inteira. Mas serei honesto aqui. O PSM tenta reduzir, mas não elimina. Existem diversos tipos de estudos observacionais. E o observacional populacional, como este de Itajaí, é um nível baixo de evidência. Se houvesse apenas, única e exclusivamente o estudo de Itajaí, em profilaxia da COVID com ivermectina, ninguém poderia bater o martelo sobre eficácia. Teríamos uma sugestão, um caminho, algo para prestar atenção.

Além disso, todos os estudos observacionais populacionais possuem diversas limitações. Afinal, nestes estudos, trabalha-se com dados retroativos. Ou seja, distribuiu para um monte de gente, passou um tempo, vamos coletar os dados da melhor forma possível e reportar em um estudo.

Mas vamos ao cerne da questão. Hoje, agosto de 2026, existem 106 estudos com resultados clínicos da ivermectina na COVID.  E entre pré-exposição, quando toma-se para evitar contágio, ou pós-exposição, quando toma-se depois de ter contato com alguém contaminado, para tentar evitar a doença, são 18 estudos. E absolutamente todos de profilaxia são positivos. Todos. 

Esta é a tabela completa com a lista de todos. Na primeira coluna da esquerda, o nome do principal pesquisador. Alguns têm o endpoint de infecção, outros de redução de hospitalizações, outro em redução de mortes. Na última coluna da direita, tem uma linha vertical. Ela é o efeito nulo. Todos os “quadradinhos” estão à esquerda dessa linha vertical. Todos, portanto, indicando eficácia.

O detalhe interessante. Cinco dos estudos de profilaxia entre os 18 são “padrão ouro”. São os que possuem a sigla (RCT) entre parênteses ao lado do nome do pesquisador principal. 

Ensaios clínicos RCT são do nível mais alto de evidência científica de ensaio clínico. Ou seja, se você retirar todos os observacionais e deixar apenas os randomizados, continuam todos positivos.

Nota extra sobre ivermectina: esta lista acima é a de estudos em profilaxia. Na somatória de estudos, apenas em estudos RCT “padrão ouro”, ivermectina também é muito eficaz em tratamento ambulatorial, com 55% na redução de riscos. Além disso, é eficaz quando inicia o tratamento em pacientes já hospitalizados, com 29% de redução de riscos.

O truque retórico

Entendem o truque de Frankito? Primeiro, foi entre a escolha de qual dos medicamentos que virou piada escolher atacar. Ele escolheu ivermectina. Afinal, depois de Oxford, fica difícil tentar manter a piada com a HCQ. Na sequência, entre os estudos da Ivermectina, escolheu o endpoint mais fácil de atacar do estudo de menor evidência, o de Itajaí. Tudo isso coroado com um fingimento que outros 17 estudos não existem, incluindo cinco “padrão ouro”.

Na manchete, lemos: “Falso milagre de ivermectina”, em letras garrafais. Tudo isso, na capa de um dos maiores jornais do Brasil.

Espírito do tempo

Em alemão, existe uma palavra bem interessante. Chama-se “zeitgeist”, que na tradução, seria “espírito do tempo”, ou “espírito de uma época”. O conceito de Zeitgeist ajuda a entender por que tanta gente comum, em algum período do tempo dentro de algum contexto histórico ou social, se comporta de uma determinada maneira sem necessariamente se considerar irracional.

A pandemia foi um período histórico e teve seu “zeitgeist”. Mas antes de exemplificar “espírito do tempo” da pandemia, vou explicar esse conceito social com outro período histórico recente. O ano era 2015 ou 2016. O Brasil sofria uma ebulição política com grandes protestos nas ruas. Tudo culminou com um golpe de estado parlamentar contra a presidente eleita Dilma Rousseff. Eu me posicionei, nas redes sociais, contra o impeachment. No presidencialismo, impeachments são fraturas traumáticas na democracia. Faltavam dois anos de governo e nada liderado por deputados como Eduardo Cunha, que logo foi preso, poderia resultar em algo bom.

Um dia, poucas semanas antes do impeachment, eu estava em um evento musical. Uma pessoa que eu conheço desde quando era adolescente, mas que não mantinha nenhum laço estreito há décadas, se sentiu autorizado moralmente a chegar em minha frente e começar a ofender, gritar, por eu me posicionar contra o impeachment. Por muito pouco, não resultou em socos e chutes. Também, no mesmo período histórico, eu fui almoçar no restaurante de um amigo que se identifica com a direita política. Este amigo, dono do restaurante, contou para um homem qual era meu posicionamento político. Este sujeito, que nunca vi na vida, levantou-se, foi à minha mesa, e se sentiu no direito de começar a gritar comigo.

É isso o que acontece quando o espírito de uma época concede autorização moral para que pessoas abandonem determinadas regras de convivência e de pensamento. E isso também aconteceu na COVID-19. 

Na pandemia, diante de qualquer pessoa que tentasse chamar atenção para as evidências se formado da ivermectina ou hidroxicloroquina, uma imensa parcela da população se sentia autorizada moralmente para rir de quem tocava no assunto, interromper a fala das pessoas, insultá-las ou tratá-las como loucas.

O Zeitgeist não determina aquilo que cada indivíduo pensa. Ele determina, em alguma medida, aquilo que uma sociedade considera permitido pensar, dizer e fazer. Como reflexo, o pensamento geral era mais ou menos assim: “Esse assunto é ridículo. Essas pessoas são negacionistas”. E, portanto, “tenho autorização para tratá-las como ridículas”. O Zeitgeist não precisa convencer uma sociedade de que determinada pessoa está errada. Basta convencê-la de que aquela pessoa não merece ser ouvida e que isso é o mais inteligente a ser feito.

Na pandemia, perdi diversos amigos por comportamentos assim, mesmo com minha curiosidade em assistir de perto como pessoas normais reagiam a esse Zeitgeist. Por meses, quando eu tentava explicar dados de estudos que saíam, suas características, tanto de tratamentos como de vacinas, essas pessoas achavam que podiam interromper, aumentar a voz, tratar com escracho. Por meses fiquei paciente, esperando para ver quando a emoção dessas pessoas voltaria ao normal para ter diálogos produtivos, mas, para muitos, perdurou além do possível.

O assustador é que não eram pessoas necessariamente estúpidas.  Eram pessoas inseridas em um ambiente que dizia “não é necessário investigar isso.” No Zeitgeist da pandemia, a sociedade criou um ambiente em que as pessoas não queriam e sentiam que não precisam saber das possibilidades de estudos e para onde as evidências estavam apontando.

E mais assustador ainda é que isso aconteceu até com especialistas. Conto uma história. Eu tenho um amigo, médico, PhD, cirurgião cardiologista, professor de medicina de alto nível. Ele resolveu acompanhar detalhe por detalhe dos estudos que saíam, com olhar crítico. Sua mãe também é médica, PhD, professora de medicina. Ele tentava mostrar para sua mãe os estudos e dados que saíam para discutir o que valia e o que não valia a pena.

A mãe passou a tratar o filho com deboche e como maluco. “Então me explica o que está errado em minha interpretação”, ele pedia a ela, me relatou. A mãe o interrompia. “Se me explicar o motivo de minha interpretação estar errada, eu mudo de ideia”, ele insistiu. Não havia diálogo. Havia deboche e acusações morais. “Nós fomos treinados exatamente para entrar nos detalhes”, insistia. A relação entre os dois ficou abalada por mais de dois anos. Vocês conseguem imaginar o peso disso?

Ela se sentia moralmente autorizada a tratar o filho assim. E hoje está lá, como contraste, noticiado que a hidroxicloroquina é eficaz, no mais alto nível de evidência científica, na universidade que é a referência do pensamento crítico e berço da ciência.

Imaginando um homem honesto

Agora imagine um homem brutalmente honesto sobre sua própria participação nesse Zeitgeist. Não necessariamente Frankito. Qualquer um que tenha feito isso, como diversos e diversos jornalistas, PhDs, ou influenciadores que tomaram, como objetivos de suas vidas, afastar pessoas da hidroxicloroquina e da ivermectina utilizando quaisquer meios retóricos possíveis:

“Eu fui na onda e fiz piadas com isso. Chamei todo mundo de terraplanista, negacionistas da ciência só porque não havia evidência máxima. Mas sempre teve evidências da HCQ e IVM. Valia a pena. Agora temos evidências do mais alto nível, até em Oxford. Era para eu ter entendido que o caminho chegava nisso, mas não fiz. Fui incompetente. Eu coloquei todo esforço para afastar pessoas de tratamentos válidos quando valia a pena.

Eu não apenas errei. Eu gostei de estar autorizado a tratar os outros como idiotas. Eu curti estar numa sociedade que criou uma autorização coletiva para que determinadas pessoas fossem tratadas como moralmente ilegítimas.

E não sei quantas pessoas morreram por causa das minhas opiniões. Mas sei que eu não tinha o direito de falar com a certeza com que falei.

E, por minha posição, muita, mas muita gente me ouviu. Perdi parentes para a COVID-19 enquanto sempre havia tratamentos. Amigos perderam seus pais.

Só me resta uma única coisa a fazer: eu prometo nunca mais dar palpite em nada. Nada que seja importante. Nunca mais. Daqui pra frente, só vou opinar se quero uma pizza calabresa ou napolitana. Minhas apostas erradas custaram muito caro. 

Meus palpites com ares de certezas absolutas, e fazendo escárnio, e ajudando a difamar quem salvava vidas, levou sabe-se lá quantas pessoas para os cemitérios. Eu contribuí com isso.

Eu vou visitar um por um dos túmulos de pais de amigos, parentes, que poderiam estar vivos uma hora dessas”.

Não dá para ser honesto

É impossível um ser humano ser tão brutalmente honesto. Fazer isso é se anular como pessoa. É entrar em tristeza profunda. É um colapso emocional. Restam, entre eles, ficarem se enganando, pegando endpoints dos estudos mais fracos, cantando vitória, fingindo que o monumental conjunto de evidências não existe, fingindo que Oxford não noticiou o que noticiou. Outros, que tomaram posições semelhantes, do escárnio, da identidade moral que não se sustenta diante dos dados e fatos, também veem utilidade em textos assim: encontram o mesmo conforto da autopreservação.

Diógenes, entre os que se meteram a palpitar com ares de sábios, analistas, na pandemia, se colocando como “defensores da ciência”, mas simplesmente reproduzindo o lobby de grandes corporações, afastando pessoas de tratamentos válidos, apontaria sua lanterna e encontraria rostos vazios.

Dois mil anos depois, nada mudou. Entretanto, a pergunta, hoje, provavelmente é outra: o que acontece com uma sociedade quando ninguém consegue mais admitir que estava errado?


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Foto de Filipe Rafaeli

Filipe Rafaeli

Escreve sobre a pandemia em seu Substack e tem artigos publicados em veículos internacionais, incluindo o jornal francês "France Soir", o "Brownstone Institute" dos Estados Unidos, e também o site americano "Trial Site News".