Editorial: o CFM, a medicina e a vida

Uma pergunta que não cala: quantas vidas poderiam ter sido salvas a mais nesta pandemia? Se todos os médicos brasileiros tivessem tratado precocemente, qual teria sido o resultado? E se todos os pacientes tivessem tido acesso aos medicamentos em tempo real? E se os exames tivessem sido disponibilizados pelos postos de saúde? E se o foco tivesse sido tratar a doença em casa, e não “tratar as complicações no hospital?” Quantas mortes teriam sido evitadas? 80%, 90%?

Essa é a missão da medicina: salvar vidas.

Paradoxalmente, uma narrativa negacionista não deixou. Isso mesmo. Não deixaram tratar. E por quê?

Porque houve um entendimento inicial de que a covid19 pudesse ser uma gripe simples. E como pudemos ver, não é assim. Se 80% das pessoas têm imunidade ou desenvolverá uma forma leve da doença, em outros 20% suscetíveis teremos uma doença imunológica, hematológica, vascular e hiper-inflamatória que poderá ser grave e até mortal. Mas é uma doença que possui tratamento e pode ser curada, desde que se inicie o tratamento de imediato, utilizando-se medicamentos reposicionados, eficazes, seguros e de baixo custo.

O entendimento inicial sobre a doença ficou para trás. A doença é outra coisa que não uma simples gripe. Em segundo lugar, parte dos médicos permitiu que a medicina fosse invadida por interesses alheios. A politização, a midiatização, o terrorismo psicológico e a desinformação intencional foram a tônica na pandemia. Um circo. Há de tudo, menos a informação adequada, a orientação às pessoas, a assistência integral e o estudo necessário por cada profissional e em cada unidade de saúde.

Como se não bastasse, uma CPI foi criada para apurar responsabilidades da desassistência na pandemia. Porém, ao invés de identificar quem não fez, ou fez errado, traçou uma diretriz de perseguir quem tratou, assistiu e salvou vidas, numa completa inversão de valores. Foi criada uma condenável narrativa da morte, promovendo um nebuloso estado de exceção.

Esta semana, essa CPI investiu contra o presidente do CFM, colocando-o na condição de “investigado”. E com qual intuito? Ao que parece, para atingir a autonomia médica e o compromisso dos médicos que tantas vidas salvaram. 

Não é a pessoa do presidente do CFM que pretendem atingir. Até porque ele sequer foi ouvido nessa CPI. Ao contrário, escalaram diversos tipos de atores para falar de medicina, menos o representante maior dos médicos, a autoridade formal da medicina no país. Assistiu-se a tentativas reiteradas, acintosas, de intimidação e de constrangimento. Tentaram calar os médicos e interromper o tratamento dos adoecidos de covid19. Como tal intento foi em vão, investiram inusitadamente contra o presidente do CFM, usando-o como emblema, talvez esperando calar os médicos e paralisar a medicina. Sob qual acusação? Movidos por quais interesses?

São os convertidos em replicadores de protocolos de medicamentos lucrativos, aprovados, celebrados por Wall Street, pela FDA e Anvisa, como o remdesivir. São os que querem médicos desprovidos da autonomia intrinsecamente ligada à própria profissão. São os que desejam médicos submissos, incapazes de pensar e de se manifestar na elaboração da terapêutica e do ato de salvar vidas. São os que desejam, adicionalmente, que médicos não se manifestem sobre os destinos da medicina e até do país. 

São os mesmos que pregam a narrativa de que “tem poucos médicos no Brasil” e promoveram, em apenas 15 anos, a abertura de 220 escolas médicas, majoritariamente particulares para gerar dinheiro e poder para certas pessoas e grupos.

Para esses ideólogos do fim da medicina, alguns inclusive bacharéis portadores de diploma de médico, que não atendem pacientes, mas tão somente usam da anti-política de desqualificar os médicos ou se deram bem promovendo a luta interprofissional, jogando profissionais uns contra os outros. Sim, estamos falando da ralé da medicina.

Os médicos de verdade continuarão sendo prestigiados, terão seus nomes lembrados no panteão da Medicina. Pois assim foi, e assim sempre será. Já os inimigos da medicina e da vida, esses logo serão olvidados pela sua irrelevância e maldade, soterrados no esquecimento necessário à cicatrização das feridas infectadas.

Em tempos sombrios, entidades representativas, inclusive sindicatos, covardemente se calam. Colocando assim em cheque a necessidade de sua existência.

Mas a Medicina sobreviverá, como sempre. E seus profissionais, balizados pela ética, pela moral e pela verdade, serão sempre lembrados.

Nosso mais veemente repúdio contra a agressão à profissão médica, materializada no pedido de investigação contra o presidente do CFM, pela CPI em curso.

MPV – Coordenação Nacional

Acesse o pronunciamento na íntegra do presidente do CFM Dr. Mauro Ribeiro