Um ensaio clínico randomizado internacional, bayesiano e adaptativo, o desenho mais rigoroso que a medicina baseada em evidências pode oferecer, testou o oseltamivir em 442 pacientes gravemente enfermos com influenza confirmada. Os participantes foram divididos em três grupos: oseltamivir por 5 dias, oseltamivir por 10 dias ou nenhum antiviral. O resultado é devastador. A mortalidade em 90 dias foi de 13,7% no grupo sem antiviral, 19,8% no grupo de 5 dias e 19,4% no grupo de 10 dias. O odds ratio ajustado para mortalidade em 90 dias foi de 2,13 para oseltamivir por 5 dias e 2,17 para 10 dias, ambos favorecendo o não tratamento. A probabilidade posterior de dano foi de 98,0% e 98,2%, respectivamente. O estudo foi interrompido precocemente por excesso de dano. A conclusão dos autores é direta: o tratamento com oseltamivir é ineficaz e há alta probabilidade de que aumente a mortalidade em 90 dias em pacientes críticos com influenza.
Em pacientes ambulatoriais, a história também é decepcionante, e já era conhecida. A revisão sistemática Cochrane, referência mundial em síntese de evidências, concluiu que o oseltamivir não reduz hospitalizações. O benefício demonstrado é de aproximadamente 17 horas de redução no tempo até o alívio dos sintomas. Dezessete horas. Menos de um dia de mal-estar leve a menos, sem qualquer comprovação de redução de internações ou mortes. Um benefício clinicamente marginal, irrelevante. E, ainda assim, suficiente para sustentar duas décadas de prescrições em massa, compras públicas bilionárias e lucros robustos para a indústria farmacêutica (A Roche vendeu cerca de US$ 20 bilhões em Tamiflu em todo o mundo entre 1999 e 2016, quando sua patente americana para o medicamento expirou).
É exatamente por ser tão irrelevante que esse caso se torna tão ilustrativo. Ele escancara como a indústria consegue transformar um benefício marginal, quando não inexistente, em um produto de prateleira obrigatória nos sistemas de saúde do mundo inteiro.
Uma história de fé sem evidência
O oseltamivir chegou ao mercado embalado por uma promessa que nunca foi devidamente comprovada. Os estudos que embasaram sua aprovação tiveram seus dados completos mantidos sob sigilo pela Roche, detentora da patente, por anos a fio. Quando o mundo se viu diante do medo de uma gripe aviária devastadora, governos de diversos países, incluindo o Brasil, correram para estocar o medicamento. A base para decisões de saúde pública de tamanha magnitude não eram ensaios clínicos robustos, mas modelos matemáticos e projeções catastróficas. Vieram as pandemias, o Tamiflu foi distribuído em massa, e a indústria farmacêutica lucrou bilhões. Anos depois, descobriu-se que boa parte dos estudos que sustentavam a recomendação era de qualidade duvidosa ou nunca havia sido publicada. A ciência independente desmontou a promessa. E agora, o primeiro grande ensaio randomizado desenhado especificamente para pacientes críticos mostra que o medicamento aumenta a mortalidade. Não é apenas ineficaz. É provavelmente nocivo. Duas décadas de fé. Nenhuma prova de benefício. E, agora, evidência de dano.
O que o Brasil precisa fazer
O Ministério da Saúde deve suspender imediatamente a aquisição de oseltamivir. Dependendo do laboratório parceiro e do volume adquirido, o gasto anual com o medicamento flutua entre R$ 50 milhões e 95 milhões. Recursos que fazem falta em cirurgias eletivas represadas, leitos de UTI e atenção básica. Cada caixa comprada é dinheiro que deixa de ir para onde realmente salva vidas.
Além disso, se o Tamiflu é ineficaz e potencialmente perigoso, os profissionais de saúde têm o dever de informar isso aos pacientes. A confiança na medicina se constrói com honestidade, não com a manutenção de práticas que só atendem os interesses dos que vendem os medicamentos.
O caso do Tamiflu é um lembrete poderoso de que medicamentos amplamente prescritos não são necessariamente eficazes. No caso, não foi a ciência que falhou. Foi a captura da ciência pelo interesse comercial. A indústria farmacêutica lucrou bilhões com um medicamento que, no melhor cenário, encurta sintomas leves em 17 horas. No pior, e mais provável, segundo os dados mais recentes, aumenta o risco de morte em quem mais precisa. O MPV – Médicos pela Vida, tem sido crítico da influência da big pharma sobre as decisões de saúde pública e do desperdício de recursos estaduais e federais com intervenções inúteis. Este é apenas mais um exemplo.
Agora falta a parte mais difícil: agir de acordo com as evidências científicas atuais, com a prudência e seguir o preceito fundamental da medicina: primeiro, não fazer mal. . E parar de tratar a gripe com um remédio que, comprovadamente, não ajuda e provavelmente atrapalha. O SUS precisa parar de comprar. O dinheiro do brasileiro precisa ir para onde realmente é necessário.
Fonte:
Oseltamivir for Critically Ill Patients with Influenza: A Randomised Trial