Quanto mais o especialista recebe da indústria farmacêutica, mais ele é contra a hidroxicloroquina, diz estudo

“Não existe almoço grátis”, afirmou o vencedor do Prêmio Nobel Milton Friedman. A frase é citada no estudo.

Um dos maiores furos jornalísticos de toda a pandemia não é o resultado do trabalho de jornalistas investigativos, mas de cientistas.  Publicado na forma de artigo científico na revista New Microbes and New Infections, o estudo foi conduzido pelos cientistas Yanis Roussel e Didier Raoult, ambos do IHU Méditerranée Infection, um centro de excelência em pesquisas localizado em Marselha, no Sul da França.

Os dois autores efetuaram o cruzamento das opiniões públicas dos especialistas do órgão francês CMIT — Conselho de Professores em Doenças Infecciosas e Tropicais, sobre o tratamento da COVID com hidroxicloroquina e os valores recebidos, da Gilead, por cada pesquisador.

O levantamento revelou que apenas 13 dos 98 membros do CMIT não receberam qualquer benefício, remuneração ou convênio da Gilead Sciences, a fabricante do Remdesivir, nos últimos anos.

Quanto mais dinheiro os especialistas ganharam da empresa, mais desfavoráveis foram suas opiniões sobre a hidroxicloroquina. Os nove especialistas com opiniões “muito desfavoráveis” ganharam uma média de 26.950 euros da Gilead.

No levantamento, apenas oito desses 98 especialistas foram muito favoráveis ao tratamento com a hidroxicloroquina. A média de valor recebido por eles pela empresa foi de 52 euros. Alguns desses “muito favoráveis” ao tratamento com hidroxicloroquina não receberam nada.

Ninguém sem relação monetária com Gilead ficou contra a hidroxicloroquina. “Ao todo, apenas 13 médicos de 98 membros do CMIT não receberam qualquer benefício, remuneração ou acordo da empresa Gilead Sciences entre 2013 e 2019. Dentre esses 13 médicos, sete eram muito favoráveis ​​ao uso da hidroxicloroquina, um era favorável, um era neutro e quatro não se posicionaram”, concluíram os cientistas.

Tabela que está publicada no estudo.

Os cientistas queriam demonstrar a influência coercitiva desses conflitos durante a pandemia de COVID-19. “Ficamos impressionados com o nível de correlação, que provavelmente é uma das explicações para a violência do debate que tem ocorrido sobre o uso da hidroxicloroquina”, disseram os autores.


Remdesivir, da Gilead, custa R$ 17 mil por paciente

Enquanto a hidroxicloroquina é um medicamento barato, genérico e sem patentes, o Remdesivir, do laboratório Gilead, aprovado pela Anvisa, custa R$ 17 mil por paciente, segundo reportagem da CNN Brasil. Por comparação, numa pesquisa rápida pela Internet, uma caixa com seis comprimidos de hidroxicloroquina custa cerca de 18 reais. 

“Remdesivir pode não curar o coronavírus, mas está a caminho de faturar bilhões para Gilead”, dizia a manchete do Washington Post, um dos mais importantes jornais dos EUA, em setembro do ano passado. “Opções limitadas ajudaram o remdesivir a ser lançado comercialmente em tempo recorde”.

Já o jornal Valor Econômico, no início do ano, noticiou: “Uso do remdesivir contra covid-19 impulsionou lucros da Gilead acima do esperado”


Não é só na França. No Brasil é “Patrocínio diamante”

No Brasil, o 12º Congresso Paulista de Infectologia, ocorrido entre novembro e dezembro de 2020, evento que contou com apoio da SBI – Sociedade Brasileira de Infectologia, entidade que se declara contra o uso da hidroxicloroquina no combate da COVID-19, teve a Gilead, fabricante do Remdesivir, como patrocinador “Diamante”.

Além disso, o evento teve o patrocínio da Janssen, como “Platinum” e da Pfizer, também como “Diamante”, ambas fabricantes de vacinas e que tiveram autorização de emergência nos EUA e Brasil. Já o site da FDA, agência governamental dos EUA, nos informa a lei: as autorizações de emergência acontecem quando não há alternativas, como tratamentos usando medicamentos sem patentes, genéricos e baratos, devidamente aprovados.


Checador de fatos patrocinado

Dia 16 de agosto publiquei, aqui neste espaço, uma notícia sobre um estudo de profilaxia da COVID-19 usando hidroxicloroquina. Eu noticiei que o resultado encontrado pelo estudo foi a redução de até 75% no risco de contrair a doença devido ao medicamento. O Estadão Verifica, checador de fatos do jornal O Estado de S. Paulo, classificou a notícia como “Enganosa”, reduzindo o alcance da publicação pelo Facebook. Ou seja, a notícia sofreu uma espécie de censura.

A jornalista Paula Schmitt, do Poder 360, informa, em sua coluna, que o patrocinador do “Estadão Verifica” é a fabricante de vacinas da Johnson & Johnson, a Janssen. “Restringir a um único grupo o poder de decretar o que é verdade é um dos maiores desatinos dos nossos tempos”, afirmou Paula em sua coluna. (Veja o print aqui).


Apagão jornalístico

Ninguém, em sã consciência, pode afirmar que uma notícia sobre o fato de quanto mais os especialistas recebem da indústria, mais são contra a hidroxicloroquina, não é informação de interesse público. Por que isso não foi publicado em nenhum jornal de grande circulação? Falta de tempo não é. O estudo é de novembro de 2020.


Conclusão

Se você ouvir alguém por aí com opiniões “muito desfavoráveis” sobre a hidroxicloroquina, e essa pessoa não estiver com os bolsos cheios, saiba que se trata de um idiota.


Fonte

Leia o estudo completo aqui.

Por Filipe Rafaeli, link do orignal aqui.